Saudosismo à deriva


Já faz um tempo que eu vi À Deriva, último filme do Heitor Dhalia. Minha primeira impressão foi a de um filme bonito. O azul do mar, da forma que foi tratado na imagem, deu vontade de mergulhar na tela. Como filha de pais separados, achei legal também que a historia de um amor partido tenha se dado a partir da filha. Mas hoje acho que senti o que mais ficou do filme. E olha que já faz um tempo desde que o vi. Estava ouvindo Caetano Veloso e começou a tocar Saudosismo. Na hora me deu um aperto e pensei no À Deriva. Nem lembro direito da trilha sonora, mas tenho quase certeza que não tem Caetano- acho que era só instrumental. É que me lembrei das minhas férias na praia. Assim como a Felipa, eu também era meio bobinha, dizia não quando queria dizer sim, e vice-versa. Nessas, perdi muitas chances de ser mais feliz (leia-se dar mais beijo na boca). Mas, mesmo assim tive meus momentos. Era bom demais a sensação do banho tomado, depois de passar o dia inteiro na praia, a quentura do sol ainda na pele, o olho um pouco ardente. Passar um creme e escolher a roupa para sair à noite. As vezes- a maioria- nem rolava nada demais, mas era inexplicável o sentimento de eternidade que o verão dava. Dois meses sem colocar sequer uma meia, sair escondido pra fumar na praça, assistir ao pôr do sol com os primos irmãos, esperar a primeira estrela subir e fazer pedido.
Até que o dia da partida chegava, ele sempre chega. E ai eu chorava, não sem antes correr até a praia e olhar o mar, como se fosse a última vez. Nunca vou me esquecer da vez em que comi areia, jurando voltar. Acho que já nasci saudosista, e vai, um pouco dramática.

Tom & Radamés

Ainda entretida com o texto da pesquisadora Santuza Cambraia Naves, um interessante paralelo entre a trajetória de Radames Gnatalli e de Tom Jobim. "Tom compartilha com o mestre (Radames) duas atitudes: uma, a de transitar — como músico, compositor e arranjador — com desenvoltura pelos domínios do erudito e do popular; outra, a de se permitir experimentar os mais diversos estilos, operando tanto no registro da simplicidade quanto na estética do excesso. Esta maneira de atuar, característica de Radamés, permitiu que ele fizesse uma verdadeira revolução nos arranjos de música popular a partir do início dos anos 30."


Achei um vídeo dos dois, Tom Jobim de espectador e Radamés interpretando  uma das músicas mais lindas do Tom, Chovendo na Roseira, toda vez que eu ouço dou um suspiro bem gostoso, ai ai...

Bim Bom




Como tudo que é incorporado na memória coletiva, a Bossa Nova tem seus lugares-comuns. Um deles é a de que a nova música foi uma ruptura com a tradição de excessos do samba-canção e do jeito de interpretar dos músicos da Rádio Nacional, como Orlando Silva e Dalva de Oliveira.


Fuçando na internet, achei um artigo muito bacana de uma pesquisadora mineira radicada no RJ, Santuza Cambraia Neves. DA BOSSA NOVA À TROPICÁLIA: contenção e excesso na música popular*, disponível na página do Scielo, um site com vários textos acadêmicos grátis.


Chamou-me atenção a ênfase da autora para a bossa-nova além João Gilberto. Primeiro ela assume sua genialidade, atribuindo a ele o status de engenheiro, conceito desenvolvido por Jacques Derrida e que designa aquele que constrói seu discurso a partir de si mesmo. Se João Gilberto construiu uma nova forma de tocar e cantar, existiram outros representantes da Bossa Nova com trajetórias diversas. Ela cita Roberto Menescal e Carlos Lyra, e a declarada influência de Ravel, Debussy, e dos boleros de Lucho Gatica. Isso me fez lembrar de quando entrevistei Carlos Lyra, a propósito dos 50 anos da Bossa Nova, em 2007, para o Jornal da Tarde. Fiquei curiosa para rever a entrevista, que posto aqui. Nela, Lyra diz que a Bossa não foi ruptura com o samba-canção, citando como exemplo o primeiro disco de Silvinha Telles que trazia de um lado um samba-canção de Lyra, e de outro um de Tom Jobim. "Nem existia João Gilberto", diz ele.

   
"O povo não entende a Bossa"

Músico diz por que não vê Tom Jobim como ícone e desabafa sobre a falta de cultura no País

Georgia Nicolau


 
Para alguns, foi um movimento datado que durou apenas enquanto uma certa classe média carioca ainda acreditava no Brasil e no projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Mas, quase 50 anos depois do lançamento do compacto de um 'tal violonista' baiano chamado João Gilberto, com as canções Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e Bim Bom, do próprio, a bossa nova continua viva nas telenovelas brasileiras, em elevadores e na voz de artistas como Luciana Souza, Bebel Gilberto e Cibelle.

Para começar os festejos de meio século do movimento, a partir dessa quinta-feira até o final do ano, o Tom Jazz recebe o evento Agenda Bossa Nova. Serão ao todo 26 apresentações que reunirão ícones da Bossa como Carlos Lyra, Leny Andrade, Alaíde Costa, Os Cariocas, Marcos Valle, Roberto Menescal, João Donato e novos talentos.

A primeira temporada (nos dias 13, 14 e 15) será com o cantor e compositor Carlos Lyra. Parceiro de Vinicius de Moraes em clássicos como Minha Namorada e Coisa Mais Linda, Lyra foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o famoso CPC da UNE, que reuniu um setor da música brasileira com um projeto de atuar politicamente por meio da arte.

Morando em Ipanema desde da volta do auto-exílio durante a ditadura, Lyra falou ao JT, por telefone, sobre os 50 anos da Bossa Nova, política e cultura.

No livro 'Chega de Saudade', de Ruy Castro, o autor diz que seus ídolos quando adolescente eram Johnny Alf e o violonista Garoto. Quem são seus ídolos hoje?

Ravel, Debussy, Chopin, Villa-Lobos e Lucho Gatica, que cantava bolero. O bolero é muito importante porque o samba-canção é o bolero brasileiro e a bossa nova começou com o samba-canção. Não começou com batidinha de violão, não. Isso veio depois. No primeiro disco da (cantora) Silvinha Telles, ela cantava um samba-canção meu de um lado e do Tom Jobim do outro. Nem existia João Gilberto. Antes de mais nada, bossa nova é composição. Agora, a interpretação de João Gilberto é muito importante. Ele deu um caminho, uma maneira de interpretar. Já existia a melodia, o ritmo e a composição. Faltava interpretação.

Existe algum 'pai' do movimento Bossa Nova?

Existe uma mãe. Eu sou meio matriarcal, meus grandes heróis são quase todos mulheres. A mãe da Bossa é a classe média. Ela nasceu da classe média. Se não fosse por isso, não duraria 50 anos. Seria uma música de geração e teria acabado lá.

De onde vem a identificação?

A bossa é culta, tem cultura universal. Tem influência de Ravel, Debussy, do jazz americano, da canção francesa. E todas essas coisas estabelecem uma identificação com a classe média do mundo inteiro. No exterior, eles pagam caro, bem. Eu só moro aqui porque é bonito (risos).

O que você acha de o Tom Jobim ter se tornado um ícone no Brasil e no mundo?

Acho que o Tom foi um dos maiores compositores que já tivemos. Mas, para mim, ele não é um ícone, não, porque era meu companheiro, meu colega. Não o vejo como uma coisa muito distante. Ele era meu fã, escreveu no meu songbook coisas lindas sobre mim. Adoro o que ele faz porque eu entendo.

Mas a mídia acabou elegendo algumas pessoas...

A mídia está aí para isso, transformar pessoas em ícones. Mas o Tom, para mim, é um colega.

Existe algum ressentimento seu pelo fato de a bossa ter virado 'sinônimo' de Tom Jobim, Vinicius e João?

Não. Existe uma certa decepção pelas pessoas não entenderem a bossa nova. Elas falam que é Tom, Vinícius e João e não é - tem mais coisa. É toda uma geração de músicos, compositores e artistas sem a qual a bossa não teria existido. Dizem que a bossa nova nasceu na casa da Nara Leão. Besteira. Dizem também que é um estado de espírito. Outra besteira. Um monte de bobagem... Dizem que é samba, mas tem muito mais coisa. Bossa nova tem valsa, baião, modinha, samba-canção, marcha-rancho, tantos ritmos, não é só samba, não.

Como o senhor definiria a Bossa Nova? É um movimento classe média, afinal?

Bossa nova é música feita pela classe média para a classe média. Infelizmente, é por isso que ela não tem tanta força com o povão. O povão não entende porque a bossa nova tem cultura e o povão não tem cultura. O Bolsa-Família nunca vai entender a bossa direito. É o que falta no Brasil: cultura. Diziam que bossa nova era elite. Se você está dizendo que cultura é elite está dizendo outra besteira. Cultura é uma coisa que eu queria que todo brasileiro tivesse. Ao invés de Bolsa Família, que tivéssemos gente culta nas escolas, que não houvesse analfabetos nem famintos. A bossa é culta, mas não quer dizer que seja de elite.

sabia!



"Como boa virginiana, vivo no Caos, por isso prefiro a Ordem."


 da cineasta Tata Amaral no programa Provocações de sexta. Finalmente alguém me entende!!!




Um dia




De vez em quando, a eira e a beira se perdem, os caminhos ficam um pouco confusos, as costas doem, coisas estranhas acontecem. Mas é assim também, do nada, que coisas boas acontecem. Como quando subindo de um mergulho no mar, você abre os olhos e se sente simplesmente feliz. Ou quando cortam a água da sua casa, você pega sua bolsa vermelha de bolinhas, enche a necessaire com creminhos cheirosos e vai tomar banho em outro chuveiro. Chegando lá, o chuveiro é tão gostoso. E ai, bom, dá vontade de que cortem a água todos os dias na sua casa. Tudo isso para dizer que algum dia desses abri o blog da amiga Nana, uma amiga sumida, mas que, por meio do blog dela, deixa a gente compartihar um pouquinho da vida com ela. E ai tava essa poesia da Célia Musilli, que eu não conhecia, mas que também tem um blog muito legal. Li a primeira vez e já quis saber quem era essa que conseguia, de maneira aparentemente tão fácil e espontânea, dizer tudo que tenho pensado sobre a vida. Ou que pelo menos tento, mesmo quando a eira e a beira pedem recesso. 


Quase uma oração

"Um dia a gente acorda e percebe que mudou, depois de levar muita porrada e ter os ossos moídos junto aos sonhos.
Um dia a gente acorda e percebe que nem toda mudança precisa ser amarga,
embora o que nos mova quase sempre seja a dor, esta parceira do imprevisto.
Um dia a gente acorda e descobre do lado do avesso um espaço zen, uma espécie de paz interior que nos adula e acaricia,
como se a mãe voltasse a nos pegar no colo.
Neste dia, inexplicavelmente,
decidimos que o melhor a fazer
numa manhã é plantar um girassol
só para ver, dali a um tempo,
sem angústia, dilema ou rejeição,
que a vida dança a dança dos dervixes...
e que a nossa entrega à vida
é um ritual sem hoje nem amanhã.
A felicidade pode ser o ato de movimentar -se
como os girassóis, para lá e para cá,
só pra ver onde começa e onde termina o dia...
sem pressa.
Os acontecimentos não nos pertencem."

Célia Musilli

A Human Being That Was Given to Fly

dias que ficam na memória: 3/12/2005, Pacaembú

This Is The End