A hipótese comunista


Texto de SLAVOJ ZIZEK que saiu na Revista Piauí de julho de 2009.



Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm "nada a perder além dos seus grilhões", o que nos une é o perigo de perdermos tudo: nosso meio ambiente, nosso patrimônio genético e a possibilidade de nos comunicarmos livremente

Em um magnífico texto curto, "Notas de um Publicista" - escrito em fevereiro de 1922, quando os bolcheviques, depois de, contra todas as expectativas, vencerem a guerra civil, precisaram recuar, adotaram a Nova Política Econômica e admitiram uma liberdade de ação muito mais ampla para a economia de mercado e a propriedade privada -, Lênin usa a analogia de um alpinista obrigado a retroceder em sua primeira tentativa de chegar a um novo pico para descrever o que significa o recuo num processo revolucionário, e como pode ser levado a cabo sem, oportunisticamente, trair a causa:

Imaginemos um homem que escala uma montanha muito alta, íngreme e até então inexplorada. Vamos supor que ultrapassou dificuldades e perigos inéditos, conseguindo atingir um ponto muito mais alto que qualquer um dos seus antecessores, mas que ainda não chegou ao cume. Ele se vê numa posição em que não é só difícil e perigoso prosseguir, na direção e pelo trajeto que escolheu, mas positivamente impossível.

Seria mais que natural, para um alpinista nessa posição, escreve Lênin, passar por "momentos de desânimo". E o mais provável é que esses momentos se tornassem mais frequentes e difíceis caso ele pudesse escutar as vozes dos que se encontram ao pé da montanha, e "por um telescópio, a uma distância segura, acompanham sua perigosa descida":

As vozes que vêm de baixo ressoam com alegria maldosa. Nem se preocupam em ocultá-la, riem com gosto e exclamam: "Ele vai cair de uma hora para outra! E é bem-feito para esse lunático!"

Felizmente, prossegue Lênin, nosso excursionista imaginário não tem como escutar as vozes dessas pessoas. Se ouvisse, "é provável que o deixassem nauseado, e a náusea, dizem, não ajuda ninguém a manter a lucidez mental e os pés firmes, especialmente em altitudes elevadas".

Mais adiante, Lênin aborda a situação que a recém-nascida República soviética enfrentava naquele momento:

O proletariado da Rússia atingiu uma altitude gigantesca em sua revolução, não só em comparação com 1789 [tomada da Bastilha] e 1793 [execução de Luis xvi, proclamação da República e Terror], mas também com 1871 [Comuna de Paris]. Precisamos avaliar o que fizemos e deixamos de fazer, da maneira mais desapaixonada, clara e concreta possível. Se o fizermos, conseguiremos conservar a lucidez. Não sofreremos de náusea, ilusões ou desânimo.

E conclui:

Estão perdidos os comunistas que imaginam ser possível levar a cabo uma tarefa tão memorável quanto a construção das fundações da economia socialista (especialmente num país de pequenos camponeses) sem cometer erros, sem recuos, sem numerosas alterações do que ficou incompleto ou foi feito da maneira errada. Os comunistas que não têm ilusões, que não se entregam ao desânimo e preservam sua força e flexibilidade para "começar do começo" repetidas vezes, para dar conta de uma tarefa extremamente difícil, não estão perdidos (e muito provavelmente não haverão de perecer).

Eis Lênin no que melhor tem de beckettiano, prefigurando a frase de Worstward Ho [Rumo ao Pior]: "Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor." Sua conclusão - começar do começo - deixa claro que não está falando de simplesmente reduzir a velocidade e consolidar o que foi realizado, mas de descer todo o caminho de volta até o ponto de partida: deve-se começar do começo, não do ponto alcançado na tentativa anterior. Nas palavras de Kierkegaard, um processo revolucionário não é um progresso gradual, mas um movimento repetitivo, um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes.

Onde nos encontramos hoje, depois do désastre obscur de 1989? Como em 1922, as vozes que vêm de baixo ressoam à nossa volta com alegria maldosa: "Bem-feito para esses lunáticos que tentaram impor sua visão totalitária à sociedade!" Outros tentam ocultar seu regozijo maldoso, gemem e erguem para o céu os olhos cheios de dor, como se dissessem: "Como nos faz sofrer ver nossos medos justificados! Como era nobre sua visão de criar uma sociedade justa! Nosso coração batia em uníssono com o seu, mas a razão insistia em nos dizer que seus planos só podiam acabar em miséria e em novas restrições à liberdade!" Ao mesmo tempo em que recusamos qualquer acordo com essas vozes sedutoras, precisamos definitivamente começar do começo - não para continuar a construir com base nas fundações da era revolucionária do século xx, que durou de 1917 a 1989, ou, mais precisamente, 1968 - mas descer de volta até o ponto de partida e escolher outro caminho.

Mas como? O problema definidor do marxismo ocidental tem sido a ausência de um sujeito revolucionário: como é que a classe trabalhadora não completa a sua passagem de classe em si a classe para si e não se constitui como agente revolucionário? Foi essa pergunta que forneceu a principal raison d'être para que o marxismo ocidental recorresse à psicanálise - evocada para explicar os mecanismos libidinais inconscientes que impedem o surgimento de uma consciência de classe, e que estão inscritos no próprio ser, ou na situação social, da classe trabalhadora.

Dessa maneira, a verdade da análise socioeconômica do marxismo foi posta a salvo: não havia razão para ceder terreno a teorias revisionistas envolvendo a ascensão das classes médias. Por esse mesmo motivo, o marxismo ocidental envolveu-se também na procura constante de outros, que pudessem desempenhar o papel de agente revolucionário, como um ator substituto que está a postos para ocupar o lugar da classe trabalhadora indisposta: os camponeses do Terceiro Mundo, os estudantes e intelectuais, os excluídos.

É possível, também, que essa busca desesperada pelo agente revolucionário seja a forma assumida pelo seu oposto exato: o medo de encontrá-lo, de reconhecê-lo onde ele já se agita. Esperar que outro trabalhe no nosso lugar é uma forma de racionalizar a nossa inatividade.

É contra esse pano de fundo que Alain Badiou sugeriu a reafirmação da hipótese comunista [leia na piauí-_23]. Ele escreve:

Se precisarmos abandonar essa hipótese, então não valerá mais a pena fazer nada no campo da ação coletiva. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia, nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo.

No entanto, prossegue Badiou:

Aferrar-se à Idéia, à existência da hipótese, não significa que sua primeira forma de apresentação, tendo como foco a propriedade e o Estado, precise permanecer inalterada. Na verdade, o que cabe a nós filósofos como tarefa, e até mesmo obrigação, é ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista.

É preciso tomar cuidado para não ler essas linhas à maneira kantiana, concebendo o comunismo como uma Idéia reguladora, e ressuscitando assim o espectro do "socialismo ético", que tem a igualdade como sua norma ou a priori. Em vez disso, é preciso observar a referência precisa a um conjunto de antagonismos sociais que gera a necessidade do comunismo: a boa e velha idéia marxista do comunismo não como um ideal, mas como um movimento que reage a contradições reais.

Tratar o comunismo como Idéia eterna implica que a situação que o gera não é menos eterna, e que o antagonismo ao qual o comunismo reage sempre estará presente. E a partir daí estaremos a um passo apenas de uma análise desconstrutiva do comunismo como um sonho de presença, um sonho que se alimenta da sua própria impossibilidade.

Embora seja fácil rir da idéia de Francis Fukuyama do "fim da História", hoje a maioria é fukuyamista. O capitalismo liberal-democrata é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível. Tudo que se pode fazer é torná-lo mais justo, tolerante e por aí afora. E uma pergunta simples, mas pertinente, surge aqui: se o capitalismo liberal-democrata é, senão a melhor, mas a menos pior das formas de sociedade, por que não simplesmente resignar-nos a ele de um modo maduro, ou mesmo aceitá-lo sem restrições? Por que insistir, contra ventos e marés, na hipótese comunista?

Não basta permanecer fiel à hipótese comunista: é preciso localizar na realidade histórica antagonismos que transformem o comunismo numa urgência de ordem prática. A única questão verdadeira dos dias de hoje é a seguinte: será que o capitalismo global contém antagonismos suficientemente fortes para impedir a sua reprodução infinita?

Quatro antagonismos possíveis se apresentam: a ameaça premente de catástrofe ecológica; a inadequação da propriedade privada para a chamada propriedade intelectual; as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos, especialmente no campo da engenharia genética; e por último, mas não de importância menor, as novas formas de segregação social - os novos muros e favelas. Devemos notar que existe uma diferença qualitativa entre o último, o abismo que separa os excluídos dos incluídos, e os outros três, que se referem aos domínios do que Michael Hardt e Antonio Negri chamam de commons [aquilo que é comum a todos, que é público] - a substância compartilhada do nosso ser social, cuja privatização é um ato violento ao qual se deve resistir, se necessário, pela força.

Primeiro, existem os commons da cultura, as formas imediatamente socializadas do capital cognitivo: basicamente a linguagem, nosso meio de comunicação e educação, mas também a infraestrutura compartilhada, como os transportes públicos, a eletricidade, os correios etc. Se Bill Gates conseguisse o monopólio, teríamos chegado à situação absurda em que um determinado indivíduo deteria a propriedade privada do software que constitui a trama da nossa rede básica de comunicação.

Segundo, existem os commons da natureza exterior, ameaçada pela poluição e a exploração - do petróleo às florestas, e passando pelo próprio habitat natural.

Em terceiro, os commons da natureza interior, o patrimônio biogenético da humanidade.

O que todas essas lutas têm em comum é a consciência do potencial destruidor - ao ponto da autoaniquilação da própria humanidade - se a lógica capitalista levar à apropriação desses commons. E é isso que favorece a ressurreição da noção de comunismo: ela nos permite ver a apropriação paulatina dos commons como um processo de proletarização no qual os excluídos perdem a sua própria substância; um processo que é mais uma forma de espoliação. A tarefa, hoje, é renovar a economia política da espoliação - por exemplo, a espoliação dos anônimos "trabalhadores do conhecimento" pelas empresas nas quais trabalham.

Contudo, é apenas o quarto antagonismo, o dos excluídos, que justifica o termo comunismo. Não existe nada mais privado do que uma comunidade estatal que perceba os excluídos como uma ameaça, e se preocupe em mantê-los à devida distância. Noutras palavras, nessa série de quatro antagonismos, o crucial é o que se dá entre os incluídos e os excluídos: sem ele, todos os demais perdem o gume subversivo. A ecologia se transforma num problema de desenvolvimento sustentável; a propriedade intelectual, num complexo desafio para as leis; a engenharia genética, numa questão de ordem moral.

Pode-se lutar com sinceridade pelo meio ambiente, defender uma noção mais ampla de propriedade intelectual, ou se opor ao patenteamento de genes, sem confrontar o antagonismo entre incluídos e excluídos. Mais ainda: algumas dessas lutas podem ser formuladas em termos dos incluídos ameaçados pela poluição dos excluídos. Dessa maneira, não alcançamos uma autêntica universalidade, mas só interesses "privados" no sentido kantiano.

Empresas como a Whole Foods ou a Starbucks continuam a usufruir de boa reputação entre os liberais, embora ambas combatam os sindicatos. O segredo delas é a venda de produtos com certo matiz progressista: grãos de café comprados a preços compatíveis com o "comércio ético, justo e solidário", o uso de dispendiosos veículos híbridos etc. Em suma, sem o antagonismo entre os incluídos e os excluídos, podemos nos encontrar num mundo em que Bill Gates é o maior dos filantropos, combatendo a pobreza e a doença, e Rupert Murdoch é o maior dos ambientalistas, mobilizando centenas de milhões de pessoas por meio de seu império midiático.

O que é preciso acrescentar, indo além de Kant, é que existem grupos sociais que, por conta de não ocuparem um lugar determinado na ordem "privada" da hierarquia social, surgem como representantes diretos da universalidade: são o que Jacques Rancière chama de "parte de parte alguma" do corpo social. Toda proposta política de caráter genuinamente emancipador é gerada pelo curto-circuito entre a universalidade do uso público da razão e a universalidade da "parte de parte alguma". Esse já era o sonho comunista do jovem Marx - reunir a universalidade da filosofia com a universalidade do proletariado. Desde a Grécia Antiga, temos um nome para a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico: democracia.


A noção liberal predominante da democracia também trata dos excluídos, mas de modo radicalmente diverso: concentra o foco na sua inclusão como vozes minoritárias. Todas as posições devem ser ouvidas, todos os interesses levados em conta, os direitos humanos de todos precisam ser assegurados, todos os modos de vida, todas as culturas e todas as práticas respeitadas, e assim por diante. A obsessão dessa democracia é a proteção de todos os tipos de minorias: culturais, religiosas, sexuais etc. A fórmula da democracia, aqui, consiste na negociação paciente e no compromisso.

O que se perde nela é a universalidade corporificada nos excluídos. As novas medidas políticas de caráter emancipador não serão mais produzidas por um determinado agente social, mas por uma combinação explosiva de diversos agentes. Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm "nada a perder além dos seus grilhões", o que nos une é o perigo de perdermos tudo. A ameaça é sermos reduzidos a um sujeito cartesiano abstrato e vazio, privado de todo o nosso conteúdo simbólico, com nossa base genética manipulada, vegetando num meio ambiente inabitável. Essa tríplice ameaça transforma-nos a todos em proletários -reduzidos a uma "subjetividade sem -substância", como define o Marx dos Grundrisse [esboços de crítica da economia política]. A figura da "parte de parte alguma" nos confronta com a verdade da nossa posição. E o desafio ético-político é nos reconhecermos nessa imagem.

Mais um




Rui e Vani estão de volta. Os Normais 2- A Noite Mais Maluca de Todas estreia essa sexta, dia 28. Com 400 cópias, um número super alto para filmes brasileiros, que se não me engano nenhum filme atingiu desde a retomada, Os Normais 2 promete ser mais um sucesso de publico do cinema nacional. 2009 já teve Se Eu Fosse Você 2, Divã - que aliás é do mesmo diretor de Os Normais, José Alvarenga Jr-, A Mulher Invisível. Será que o segundo filme da série vai ultrapassar o milhão de espectadores?

Bom, o filme é engraçado, de um humor muito mais inteligente e autêntico do que A Mulher Invisível e Se Eu Fosse Você 2. Depois de 13 anos juntos, Rui e Vani estão meio em crise... sabe como é, a frequência do sexo é uma curva decrescente... então, eles partem em busca de alguém que tope fazer um ménage com eles. E ai as candidatas são todas Globetes, como quase todos os Globo Filmes são. Alinne Moraes, Claudia Raia, Drica Moraes...

Vale a pena prum domingo chuvoso como o de ontem. Pipoca e coca-cola como companhia.


p.s- blog de cara nova, graças ao meu amigo, mais conhecido como WikiPet, P.Pessoa!

Coração Vagabundo


Aproveitando para tirar pó dos textos antigos... Coração Vagabundo, filme sobre Caetano Veloso só conseguiu estrear agora, mas em 11/06/2008, na Revista de Cinema, escrevi sobre ele o seguinte texto. Hoje em dia acrescentaria coisas, mudaria, mas resolvi deixar o original. O que mais falta, na minha opinião, é uma crítica mais concreta ao filme. Com tanto material na mão, o diretor, com certeza por imaturidade, poderia ter feito muito mais. A participação de Antonioni, por exemplo, se resume a uma palavra!

Por Georgia Nicolau

No disco “Araçá Azul”, de 1972, Caetano Veloso cantou Julia na canção “Julia, Moreno”, sua filha que nasceria cinco anos depois, mas que sobreviveria apenas alguns dias. É ao lado dela e do pai em Santo Amaro da Purificação, sua cidade natal, que Caetano quer ser enterrado.

Normalmente discreto sobre a vida pessoal, essa e outras confissões Caetano mostra no documentário “Coração Vagabundo”, que tem estréia no circuito comercial prevista para o segundo semestre. O filme é a primeira produção da agência publicitária Cine, fundada pelo diretor Clovis Mello e o produtor Raul Doria e que há tempos tem vontade de entrar no restrito meio do cinema no País.

O responsável pelo registro e pelo primeiro filme da Cine é o diretor paulistano Fernando Grostein Andrade, que na época das filmagens tinha apenas 23 anos. Num misto de sorte e cara de pau, Andrade, publicitário da Cine, conseguiu estrear no cinema acompanhando nada menos do que um dos maiores ícones da música popular brasileira, em turnê internacional de lançamento do disco “Foreign Sound”, em 2004.

Tudo começou com um convite da então mulher de Caetano e ainda hoje sua empresária, Paula Lavigne, para que Andrade dirigisse um DVD musical de lançamento de “Foreign” no Baretto, em São Paulo. De lá, saíram cenas descontraídas do músico como ele fazendo a barba pelado no banheiro, com Paula perguntando, “ele não é lindo?”, ou fazendo piada com o termo Pocket Show.

O diretor resolveu acompanhar o músico por Nova York e Japão para fazer um making of. Ainda sem a idéia de transformar o material em filme, seguiu o compositor pelas ruas da metrópole americana, fazendo perguntas espontâneas. “Fui o seguindo com uma câmera digital. Acho que deixei à vontade, fiz algumas perguntas, mas procurei deixar o silêncio.”

Em determinado momento, Andrade pergunta por que, apesar de todo o sucesso, temporada de shows no disputado Carnegie Hall, críticas elogiosas no “The New York Times”, Caetano não parecia estar se sentindo à vontade. “Eu saí de Santo Amaro com 18 anos de idade. Não sou uma pessoa de São Paulo, que já nasce achando que está no mundo", respondeu o músico.
A resposta representou, para o diretor, o começo do filme. Jovem, rico e paulistano, Andrade se surpreendeu com a frase. Viu ali um mito se esvaindo e percebeu que tinha um grande material nas mãos. Acompanhava uma turnê internacional, de um disco de canções americanas, interpretadas por um músico brasileiro festejado dentro e fora do seu País. E que apesar de tudo, conservava ainda sua identificação com o menino do interior da Bahia.

Sem a pretensão de explicar Caetano ou contar sua biografia de forma didática e linear, Andrade resolveu então fazer um filme sobre o baiano universal. Além de filmá-lo em temporada no Carnegie Hall em Nova York, e depois por mais três cidades do Japão, entrevistou o músico David Byrne e os cineastas Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni.

Para conectar as cidades, a câmera viajou por trilhos de trens e metrôs japoneses. “Quis mostrar diferentes culturas, os japoneses dormindo no metrô. Foi a solução que encontrei para unir as três cidades japonesas e o Caetano de uma forma lírica.”

Em certo momento, um monge budista de um templo que a equipe visitava se aproxima de Caetano e confessa ser fã da música “Coração Vagabundo”. Desconcertado, o artista explica que fez a música quando era muito jovem. Assim nasceu o nome do longa.
Foi só depois de tudo filmado que Andrade contou ao seu personagem que pretendia fazer um filme sobre ele. Receoso no começo, após assistir algumas cenas, Caetano acabou dando carta branca.

Hoje com 27 anos, Fernando admite que em seus próximos filmes, projetos que ele ainda não revela, vai buscar uma organização melhor. “Não sei se hoje eu teria entrado na loucura que eu entrei, o processo foi todo ao contrario. Fiz o filme sem dinheiro, muito levado pela empolgação, ansiedade do momento.” Só depois, com ajuda de Lavigne e de Raul Doria, da Cine, conseguiu uma co-produção com a Teleimage e o patrocínio de um banco.

Stella





Sobre aqueles momentos em que por pouco, nos transformamos em outra.
Stella estreia quinta-feira, dia 11, nos cinemas.

Gosto de Caramelo


Em meio a tantos filmes iguais, de vez em qdo a gente assiste um que te traz ternura. No meu caso, assisti dois no mesmo dia, Stella e Caramelo. Stella sobre uma menina linda que vive na periferia de Paris e seu processo de aprendizado na vida.
Caramelo é sobre amizade feminina, justo eu que amo tanto as mulheres. Aproveitando que sábado estarão quase todas reunidas (com algumas poucas e sentidas ausências) posto o texto que escrevi sobre Caramelo para o Bom de Humor. Vale a pena assistir, a delicadeza do filme me lembrou A Banda, do israelense Eran Kolirin. Reparem na beleza extraordinária da diretora Nadine Labaki, que também atua no filme como Layale, além de ter escrito o roteiro. Essa é poderosa!!!!



Uma mulher pode ser feliz ao lado de seu companheiro, sentir-se realizada com os filhos que criou, ser preenchida pelo amor da família. Mas nenhuma mulher sente-se completa sem ter amigas para comentar tudo isso. Mulheres são essenciais na vida de outras mulheres; elas são compreensivas, solidárias, divertidas, protetoras.

E como seriam esses laços em um país tão distante quanto o Líbano? Exatamente iguais, mas com um tempero diferente. Caramelo, de Nadine Labaki é um filme sobre mulheres modernas em um país com fortes regras morais.

A história se passa no mais feminino dos lugares, um salão de beleza. Afinal, quantos segredos não são contados entre uma secada e outra, na capital do Líbano, Beirute. O filme traz o dia a dia das mulheres que ali trabalham e algumas de suas clientes.

Nadine Labaki, diretora e co-roteirista também protagoniza o filme. Ela é Layale, a dona do salão. Como a maioria das mulheres cristãs de 30 anos no Líbano, ela mora com seus pais, e apesar da beleza e da competência profissional, a buzina de um homem casado com quem mantém um relacionamento secreto é capaz de fazê-la desligar o secador e sair correndo.

Suas funcionárias e amigas do salão são Nisrine (Yasmine Al Masri), uma muçulmana que está prestes a casar, mas carrega um peso que precisa ser solucionado; ela perdeu a virgindade com alguém que não seu marido e Rima (Joanna Moukarzel), que não diz, mas todos ali percebem sua dificuldade em assumir sua opção sexual.

Cliente assídua do salão, Jamale (Gisele Aouad) é uma cinquentona que usa adesivos nos olhos para parecer mais nova, e que por tentar ser o que não é, entra em trapalhadas atrás de trapalhadas. Por fim, a costureira Rose (Sihame Haddad), que não consegue se livrar do peso de cuidar de sua irmã maluca, a hilária Lili (Aziza Semaan).

O filme não aborda diretamente os problemas políticos, praticamente as únicas notícias que recebemos do Oriente Médio, mas trata de contar como é a vida das pessoas naqueles paises.

Caramelo é sobre mulheres com problemas reais, mulheres modernas, mas que precisam conviver com uma sociedade que apesar de tolerar religiões diferentes, ainda é regida por homens e carrega fortes regras sociais e rigidez moral como a obrigatoriedade do casamento e a virgindade.

O nome do filme vêm da mistura que faz o caramelo utilizado na depilação: um pouco de mel, um pouco de limão, um pouco de água. Um pouco de doce, um pouco de azedo. Altos e baixos como a vida; mas tudo se torna mais fácil quando se tem amigas ao lado.

Lumiar


No dia em que presenciei o encontro, conheci também a página do relámpago elétrico. Este disco, de Beto Guedes, é quase uma continuação do Clube da Esquina, tão emocionante quanto. E hoje não consigo parar de ouvir Lumiar, apenas porque ela é simples, bela e fala de uma das coisas que mais gosto na vida: a de celebrar a amizade. Em Lumiar. Dá pra baixar no site do Beto (www.betoguedes.com.br), clicando no LP Página do Relâmpago Elétrico.

Anda, vem jantar,
vem comer, vem beber, farrear
até chegar Lumiar
e depois deitar no sereno
só pra poder dormir e sonhar
pra passar a noite
caçando sapo, contando caso
de como deve ser Lumiar

Acordar, Lumiar, sem chorar,
sem falar, sem querer
acordar em lumiar
levantar e fazer café
só pra sair caçar e pescar
e passar o dia
moendo cana, caçando lua
clarear de vez Lumiar

Amor, Lumiar,
pra viver, pra gostar,
pra chover, pra tratar de vadiar
descançar os olhas, olhar e ver e respirar
só pra não ver o tempo passar
pra passar o tempo
até chover, até lembrar
de como deve ser Lumiar

Anda, vem cantar,
vem dormir, vem sonhar, pra viver
até chegar em Lumiar

Estender o sol na varanda até queimar
só pra não ter mais nada a perder
pra perder o medo, mudar de céu, mudar de ar
clarear de vez Lumiar

Ciça




Por aqui muitas coisas, mudanças, viradas, retornos, partidas, nózinhos nas costas, pontadas no braço direito. Tudo na mesma ansiedade, mas dessa vez com um pouco mais de consciência de que é preciso respirar fundo.
Vários textos não escritos, declarações de amor ainda por dizer, desabafos contidos.

Mas hoje é dia de celebrar a conquista de outra, que não sou eu, mas ainda assim não deixa de ser uma extensão minha. Porque se ela realiza os sonhos dela, alegra meu coração também, porque foi assim que aprendi com ela, e com outras, lá nos idos de 199e tantos, quanto ainda usávamos aparelhos nos dentes, nosso sutiãs ainda não eram tão grandes, os cabelos eram encaracolados iguais, mas enormes. Depois vieram os furos no nariz, no mesmo lugar, o gosto pelo Drum'N Bass e o forró, o samba, bate cabelo daqui, bate cabelo dali. Expressões inventadas, trilhas sonoras criadas, o gosto pela verdade e o compromisso com o querer ser. Querer ser, sempre, ser melhor, a cada dia.

É tanto que faz mais de ano que ela saiu, mas parece que não foi, de tanto que ficou.

Por onde quer que você esteja minha amiga, cachinhos iguais aos seus, um pouco maiores talvez, te acompanham, sempre torcendo. As saudades só aumentam as certezas.
Em outubro, flores, abraços e três dias de blablablablablabla.
E o melhor, numa casinha de vila, rosada!

Boa viagem Ci, que cada pessoa que você conheça, se torne melhor com a sua presença, como eu me tornei quando te conheci num dia de outono, você de macacão jeans, carinha de criança, mas atitude de mulher; e aquele sorriso.
expressodooriente